
Quem vê de fora enxerga apenas a farda e a postura firme. A sociedade aprendeu a olhar para o policial — penal, militar ou civil — como alguém treinado para suportar qualquer coisa. Mas, por trás de cada uniforme, existe um ser humano que sente, que cansa e que, muitas vezes, está chegando ao seu limite sem que ninguém perceba.
O que mais me preocupa na segurança pública de Mato Grosso não é o cansaço no final do plantão; a gente dorme, descansa e vida que segue. O que me preocupa de verdade é ver a alma do servidor se esgotando aos poucos. Trabalhar diante do sofrimento, da violência e do risco constante deixa marcas. O cérebro não precisa viver o trauma diretamente para sentir os seus efeitos; a convivência diária gera o chamado trauma vicário, desgastando o organismo em silêncio.
Muitos continuam assumindo seus postos mesmo visivelmente doentes. No sistema prisional, isso tem nome: presenteísmo — quando o profissional cumpre o plantão sem a menor condição física ou psicológica de estar ali. E os motivos mostram o peso da cultura do trabalho: o senso de dever, o receio de represálias e punições, o medo do julgamento dos colegas ou a culpa de não querer sobrecarregar a equipe. O resultado? A saúde do servidor é destruída, a atenção falha e a segurança de toda a unidade fica em risco.
O problema se agrava porque pedir ajuda ainda é um tabu gigante. O medo de ser visto como fraco e o preconceito em relação à saúde mental fazem com que o sofrimento seja escondido até o colapso.
O esgotamento mental e o Burnout na segurança pública não são frescura, falta de vocação ou fraqueza individual. São um problema estrutural e de saúde pública que exige a atenção urgente das autoridades e da sociedade. Quando um servidor adoece, a família sofre, a instituição perde e toda a população fica mais desprotegida.
Cuidar de quem está na ponta é o mínimo de humanidade com quem arrisca a própria vida todos os dias. É preciso entender de uma vez por todas: tirar a farda e pedir ajuda também é um ato de coragem. E é dever do Estado garantir que haja acolhimento para quem sempre viveu para proteger.
Emilene Nunes é Diretora de Atividade Social e da Saúde do SINDSPPEN-MT.